terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Estrela do Céu Aberto Part II

Corremos para o carro, pois a promessa da chuva chegou a ser cumprida.
Arrependi-me de ter estacionado o carro tão longe da estação, pois a cada passo que dávamos, mais gotas gordas e atrevidas caíam em cima de nós, deixando-nos completamente ensopados.

A chuva veio acompanhada por trovões que abrilhantavam o céu escuro e cinzento. Sempre gostei de trovoada, vibro ao som dos estrondos que cada raio produz ao rasgar os céus, aquela sensação de adrenalina ao ver raios a tocar no chão, numa região próxima de mim, faz-me sentir como se fosse a pessoa mais viva do mundo.

Enquanto entrava no carro, ainda ouvia os risos sonoros dos dois sujeitos da estação, que lentamente eram abafados pelos estrondos daquela tempestade. Provavelmente para aqueles dois, aquela estação negligenciada e esquecida pelo tempo, era o melhor hotel das redondezas.
Sentei-me e coloquei instintivamente as mãos no volante, fui recuperando o folgo da corrida que fizemos para escapar à chuva, e por momentos o meu pensamento ficou retido algures longe dali.

O nervosismo tinha desaparecido, tinha esquecido completamente que ele estava ali a meu lado, a uns escassos centímetros de mim, e que há pouquíssimos minutos atrás, estava a senti-lo abraçado ao meu corpo. Aquele estado de apatia desapareceu completamente assim que ouvi:

- Bela maneira desta terrinha me dar as boas vindas, não haja dúvidas!

Rimo-nos enquanto secávamos a cara e respirávamos pesadamente… coloquei o cinto, relembrei-o de fazer o mesmo e liguei o carro. Começamos a andar, sem ter um destino definido para ir…

- Então como é? Vamos onde?

Ele tinha colocado o cinto, deslizou no banco ficando semi-deitado e, colocou o joelho esquerdo em cima do tablier do carro, enquanto ia limpando as gotas de água da manga do casaco. Olhou-me com um olhar tranquilo e traquina e limitou-se a encolher os ombros e disse pouco tempo depois:

- Sei lá, tenho fome…

Ao ouvir isto perguntei inocentemente…

- Que queres comer?

- Comida… morta de preferência… e errr cozinhada já agora…

Confesso que aquilo a princípio não tinha piada nenhuma, e aparentemente tinha sido evidente o esforço que fiz para esboçar um sorriso, pois ele olhou rapidamente, endireitou-se no banco e disse:

- Ok, piada fraquinha… nota mental, melhorar as piadas!

Dei uma gargalhada sonora e bem disposta, olhei para ele, e vi aquilo que parecia ser uma expressão preocupada e ansiosa. Ele tinha adoptado agora um olhar cabisbaixo e disse:

- ‘Sério desculpa, eu não sou sempre assim, só quando estou nervoso…
- Nervoso? Estás nervoso porquê?
- Oh tu sabes! Tu, eu, juntos finalmente!
- Descansa, eu não mordo!
- Ya ya…



sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Estrela do Céu Aberto Part I

- Então ‘pah? Demoras ou o quê? Já cá estou!!

- Desculpa, desculpa, desculpa!! ‘tou já aí…

- ‘Tão vá, não me deixes aqui sozinho muito mais tempo, que isto tem um ar assombroso…

- (risos) ‘Tou já aí!


A tarde mostrava-se ameaçadoramente cinzenta, avisando para quem olhasse, que em breve viria uma chuvada daquelas que até os ossos molha.

Encaminhei-me até à estação de comboio, ponto de encontro combinado na tarde anterior e, encontrei-o lá de casaco preto e as típicas All Stars coloridas nos pés encostado à parede grafitada. Tinha um ar carrancudo a olhar para o chão e, deitava de quando em vez, um olhar sorrateiro e desconfiado a dois homens que lá se encontravam. Tinham gorro na cabeça, camisa rasgada, roupa mal tratada e suja, ar de poucos banhos e barba por desfazer. Estavam sentados no chão a um canto da estação, a berrar e a rir das piadas que cada um cacarejava, berravam um ao outro alto e a bom som, mesmo estando sentados a uns escassos dois metros um do outro.

Ele levantou o olhar, e de súbito senti-me nervoso, uma sensação esquisita nas pernas, na barriga e até nas mãos… Aquele ‘tum tum tum’ no peito começou a fazer ‘tuntuntuntuntuntum ‘ agora que ele se aproximava de mim.

- ‘Té que enfim!

- Desculpa! Obras na estrada, muitos carros… tu sabes…

- Ya ya…

Ao dizer aquelas palavras, que ele fazia questão de repetir sempre que podia, sorriu e abraçou-me fortemente, deixando-me sem espaço para retribuir o abraço, nem tão pouco para respirar! Fiquei ali sem saber ao certo quanto tempo, encostado àquele tronco quente que deixava um ruído repetitivo de coração palpitante ecoar. O cheiro daquele perfume invadia agora o meu espaço olfactivo, não era um perfume forte, nem tão pouco enjoativo, tinha um aroma suave que, mesmo o sendo, marcava a sua presença.

Quando finalmente me largou, colocou as mãos nos bolsos das calças, olhou para cima e, enquanto balançava o peso do corpo para frente e para trás sobre os pés pregados ao chão, disse:

- Errr… então e agora?! Vamos onde? Tenho fome!!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Sejam bem-vindos

Às vezes não sei quem sou... perdidamente ando nestas encruzilhadas que a vida me propõe... por vezes sigo mesmo o caminho errado, somente para me aperceber de que já não me é dada a oportunidade de trilhar o certo... Aprendi que há coisas que simplesmente não estão destinadas a acontecer, enquanto outras são simplesmente inevitáveis, independentemente da minha vontade de querer ou não contrariá-las... Quando a vida me magoa deixo que a chuva se misture às minhas lágrimas e sigo em frente... sempre em frente...

E é isso que estou a fazer, correr novos riscos, aventurar-me em novas peripécias e crescer, só mais um bocadinho…

Sejam bem-vindos ao meu pequeno mundo de sonhos e contradições...